segunda-feira, 26 de junho de 2017

Em louvor do engenheiro florestal


Ano após ano, a notícia impõe-se como uma fatalidade: a floresta é um tema incontornável, sempre e somente, pelo seu lado trágico. E como em todas as tragédias, acompanhando o período de nojo do seu impacto, segue-se o inevitável período de reflexão, ao ritmo dos momentos de emoção que sempre albergam o subterfúgio das fragilidades da condição humana…, uma reflexão, por isso, com prazos limitados de validade.

No ano transato, assim foi, perante um verão já de si catastrófico para a floresta. O governo lançou o debate, desafiando investigadores e instituições. Os investigadores da UTAD, conhecendo o terreno como poucos, lançaram então o alerta: “a floresta portuguesa precisa de uma revolução que ponha termo à inércia das entidades responsáveis pela gestão e ordenamento do espaço florestal, mas com medidas alicerçadas num conhecimento técnico-científico”.

Logo, há que mandar para o terreno engenheiros florestais. O país precisa deles. Paradoxalmente, os cursos de engenheiros florestais estão a desaparecer no ensino superior, resistindo apenas numa ou duas instituições comprometidas com uma missão estratégica de revitalização das regiões do interior. Os seus jovens engenheiros estão dotados de uma formação avançada que lhes permite intervir nos projetos de ordenamento e povoamento florestal, na proteção da floresta contra os incêndios, na aplicação do conceito de sustentabilidade na prática florestal. São profissionais que sabem bem como cresce a floresta e como reage perante condições normais e condições adversas. Sabem como ninguém onde, quando, porquê, como e o quê deve nela ser plantado.

Impõe-se, por isso, tornar apetecível a missão de engenheiro florestal. Mas também tornar apetecível trabalhar nas regiões do interior. Começa a ser tempo de pedir contas, ou respostas objetivas, a uma tal Unidade de Missão para o Interior, criada pelo atual governo e da qual se esperam intervenções claras que atraiam gente e atividades para o mundo rural, quebrando a sangria de recursos para o litoral. E nunca esquecendo que a floresta em Portugal ocupa ainda uma posição ímpar no contexto europeu. Representa cerca de 2% do PIB e em Valor Acrescentado Bruto nacional aproxima-se dos 4 milhares de milhões de euros, além de envolver quase 100 mil postos de trabalho diretos e remunerar cerca de 400 mil proprietários.

Já é tempo, pois, de a floresta passar a ser notícia não como um mundo de problemas mas como um mundo de oportunidades.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 26-6-2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A propósito de uma grande polémica por causa de um livro infantil no Brasil


Do Brasil chegam-me notícias de que o Governo vai retirar das escolas 98 mil exemplares de um livro adotado pelo PNAIC (o equivalente ao PNL em Portugal), cujo título é “Enquanto o sono não vem”, perante a queixa generalizada de que uma das narrações sugere um casamento entre pai e filha, portanto uma situação de incesto. Percebi, ao passar os olhos pela narrativa, que se trata de um texto da tradição oral, embora me pareça demasiado “moldado” pelas sucessivas vozes de narradores por que passou.

De todo o modo, há no aproveitamento desta narração para o universo infantil um grande equívoco. Os contos populares (e muitos deles foram importados de Portugal…) ao abordarem temas como o incesto, pedofilia, racismo, etc., fazem-no em termos simbólicos. E se a interpretação da simbologia não chega até às crianças, há que prescindir deles na literatura infantil.

Por exemplo, o conto “Pele de Burro” de que se conhecem muitas variantes (eu próprio recolhi duas), e integrado no ciclo da “Gata Borralheira”, trata de um rei que tenta casar com a filha, ou porque prometeu à rainha moribunda só vir a desposar uma mulher mais bela que ela, ou com uma a quem servisse o seu anel, ou a quem servissem os mesmos vestidos, etc., etc. Ora, como só a filha do rei preenche tais condições, o casamento seria com ela. Porém, aqui entra uma fada que oferece à menina a “pele de burro” que a disfarça levando à sua rejeição pelo pai, mas não por um príncipe que a desposa. A simbologia da mensagem deste conto é clara: a proibição do incesto. Mesmo que as condições naturais o favoreçam (promiscuidade habitacional, ambiente miserável nas famílias…), há que combatê-lo com todas as forças. Passar da natureza à cultura, da vida animal à vida humana, é um dos mais valiosos requisitos civilizacionais.

São estas mensagens que os contos populares transmitem. Passar os seus conteúdos para a literatura infantil é um desafio sério. Quem não o pode, ou não sabe fazer… fique quieto. 

(ap)


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um diamante a (de)lapidar



O ministro Augusto Santos Silva, com referência ao potencial das regiões fronteiriças luso-espanholas, chamou-lhe “um quase diamante por lapidar”, procurando desse jeito antever uma espécie de filão a sair da Cimeira Ibérica que se anunciava para Vila Real. E se bem sabemos como os símbolos são as pedras preciosas da linguagem sábia, há que reconhecer também no diamante a simbologia da perfeição e do invencível e imutável poder do espírito. Perfeição e espírito remetem-nos para a cultura. E em boa verdade a cultura foi o que esteve claramente ausente na Cimeira Ibérica de Vila Real. No imenso cortejo de ministros que de Portugal e Espanha marcaram presença, não vimos nem o ministro da cultura português nem o espanhol.

Os dois países firmaram, de facto, importantes acordos, seja para uma fruição turística estratégica, seja para a desembocadura dos rios de fronteira, para o reforço da cooperação científica, tecnológica e empresarial, seja em matéria de emprego e assuntos sociais, assim como na implementação das redes ferroviárias (Sines-Madrid; Aveiro – Vilar Formoso – Salamanca; e Porto – Vigo), deixando de fora a Linha do Douro, apesar dos estudos recentes que apontavam a reconversão desta via como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Tendo sido escolhida a região do Douro como palco da cimeira, muitos perguntarão: o que ganhou, afinal, a região, para além dos instantes de fama ou da miragem mediática focada no Douro navegável e na cidade de Vila Real?

           Visto isto, o “quase diamante” que o ministro invoca não passou do “quase”. Agarrar o projeto cultural comum por que vêm lutando etnógrafos galegos e portugueses há anos com vista à classificação pela UNESCO do património imaterial da velha Gallaecia, poderia bem ser o “diamante” desta cimeira. Só que a cultura não entrou lá.


Quando pela Europa fora se criam eurorregiões e eurocidades assentes em bases artificiais, em estratégias que podem prescrever se os interesses que as movem se alteram, a Galiza e o Norte de Portugal partilham uma consciência de comunidade transfronteiriça assente em bases culturais profundas e isso faz a diferença. Partilham laços histórico-culturais retratados na língua, no lendário comum, na etiologia dos topónimos, no romanceiro e cancioneiro, na ritualidade dos atos festivos. Saibam (Lisboa e Madrid) que aqui há um povo que sempre ignorou os muros que os estados jacobinos e centralistas procuraram impor ao longo da história. Um povo que vive como se as fronteiras não existissem. 

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 12-6-2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O amor também é assim…


Uma família de corujas em risco foi acolhida no Hospital Veterinário da UTAD. Devidamente tratadas, curadas e nutridas, estão agora em condições de se fazerem à vida. A UTAD vai por isso devolvê-las ao seu habitat.

Pediram socorro à Universidade e obtiveram-no. Gestos bonitos estes! E não apenas simbólicos, que afinal a coruja, guarda-noturna, princesa da noite, é também o símbolo da sabedoria, do conhecimento racional. Vê o que os outros não veem, e vê em todas as direções (consegue girar em 270º o pescoço para observar tudo em redor sem o menor movimento do resto do corpo…). Na mitologia grega, a deusa Athena, deusa da sabedoria, tinha sempre consigo, como assessora, uma coruja que lhe revelava as verdades ocultas.

Parabéns a quem tão bem tratou esta família!


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A cultura do efémero


Convidado há alguns dias por um agrupamento de escolas da região do Douro para falar com jovens sobre a literatura e os escritores durienses, fiquei estupefacto com o desconhecimento generalizado sobre os nomes e a obra dos grandes autores que desenharam em palavras e cantaram em versos a paisagem humana e física deste território, projetando-a para lá das fronteiras regionais e nacionais. Miguel Torga, João de Araújo Correia, João de Lemos, Guerra Junqueiro, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Guedes de Amorim, António Cabral, Luísa Dacosta, todos eles figuras emblemáticas e grandes embaixadores literários do Douro, são nomes (tirando o primeiro e o segundo nas escolas de que são patronos) completamente desconhecidos dos jovens de hoje.

Mas já não é só inquietante constatar a desvalorização da prática da leitura como instrumento de formação pessoal destes jovens; inquietante é também perceber a total indiferença em relação aos fatores culturais identitários que ligam os escritores ao território, aos espaços mágicos da paisagem enquanto fonte ativa de cultura e por isso fortemente inspiradores para os atos criativos.

Quem deveria fazer algo para afrontar esta realidade, ajudando a promover a leitura dos autores nas escolas e nas famílias, enriquecendo as bibliotecas escolares e fomentando parcerias dinâmicas com elas, patrocinando a reedição de obras fundamentais…, em vez disso, continua a ocupar-se em eventos efémeros, tertúlias de capela com os mesmos a debaterem sempre o mesmo, em formatos gastos e improdutivos. A cultura que se vê programar continua voltada para eventos de dimensão ilusória, mas que consomem rios de dinheiro, sem garantirem dinâmicas duradouras e enraizadas nas comunidades. Geralmente efémeros, deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela congregação de interesses que mobilizam e pela agitação momentânea que provocam pontuada numa simulada agitação mediática, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff, portanto.

Enquanto isto, continuamos a ver os nossos adolescentes, gravitando nos caprichos do vento, rendidos a uma certa “poesia” vomitada nos palcos, capazes de fazer coro com um excêntrico músico da onda rap (a entoar “deixa-te de merdas” ou “gosto do teu rabo / principalmente quando ele mexe / e a minha cresce”…), mas incapazes de recitar um verso de Torga.

(ap)
in Jornal de Notícias de 26-5-2017
 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Rebuçados de pedra


Quando leio as propostas legislativas dos governos (do anterior e agora deste) sobre o acesso dos cidadãos às pensões de reforma, vem-me sempre à lembrança o meu avô, um velho agricultor do Douro, desses que construíram, arduamente, os socalcos que formam a paisagem vinhateira, hoje Património Mundial.
Meu avô morreu quando sachava um talhão de cebolo. Ao fim da tarde de mais um dia de luta com a terra, a mesma com quem viveu uma paixão fatal, torturada em anos infindos, sentou-se na orla do geio e ali se ficou, com a sachola ao seu lado. Ali o fui encontrar, sereno, conformado com a sua derrota nesse combate desigual, inglório, com a terra. Como quem entrega, resignado, o seu último reduto a quem o escravizou a vida inteira.
Trabalhou, por isso, até ao último dia, até ao último minuto, até ao último instante de vida. Mas sempre achei que se tratou de uma situação absolutamente excecional. Até porque este Homem era também excecional. Mas não. Cada vez mais, vejo pessoas idosas, frágeis, arrastando-se penosamente nos empregos a sonhar com o oásis de uma aposentação eternamente longínqua, o que me traz sempre à lembrança aquela madrasta terra que sugou até às entranhas os derradeiros frémitos de energia do meu avô.
E quando leio que um cidadão, atingindo 60 anos de idade, poderá aposentar-se sem penalização, mas para isso deverá ter mais de 48 anos de descontos, fico espantado com a ousadia destes engodos. Só quem vive fora da realidade pode acreditar na bondade de tais promessas. São rebuçados de pedra, que não sabem a nada. Um cidadão para beneficiar de tal medida deveria ter começado a trabalhar e a descontar aos 12 anos. Em criança, portanto. E que descontos uma criança faria então?
Quem conhece e recorda a realidade desse tempo, sobretudo dos meios rurais, sabe bem que, dos 30 ou 40 miúdos que terminavam a 4ª classe, só meia dúzia, ou menos, prosseguia os estudos. Os restantes começavam logo a trabalhar. Nenhum ficava sem ocupação, pelo menos até serem chamados para a vida militar. Havia trabalho à espera nas quintas, nos montes, nas hortas, nos pomares, no pastoreio… Produziam riqueza, criavam hábitos de trabalho, disciplina, respeito. Mas que descontos faziam tais miúdos, para que hoje, 48 anos depois, possam usufruir dessa putativa reforma?
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 19-5-2017

sábado, 13 de maio de 2017

A Cimeira Ibérica que aí vem


Vila Real foi a cidade escolhida para a Cimeira Ibérica agendada para os próximos dias 29 e 30. Conhecidos os fracassos das anteriores (em especial da última, em Baiona, entre Rajoy e Passos Coelho, que durou apenas três horas e não deu em nada…), é já grande o frenesim em torno desta, que promete, no mínimo, um certo esplendor mediático para Vila Real colocando-a no mapa das grandes decisões transnacionais.

Sobre a mesa, estarão seguramente temas de que já se vai falando, inscritos num chamado Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça (POCTEP). Será assim inevitável retomar o plano de mobilidade transfronteiriça com a projetada conexão ferroviária de TGV Sines-Lisboa-Badajoz-Madrid, e (quem sabe?) dar ouvidos a lóbis nortenhos que reclamam a reconversão da Linha do Douro como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Mas estão aí também temas candentes como os projetos energéticos comuns, as emergências transfronteiriças com enfoque nos incêndios (hoje as leis proíbem que bombeiros de um país acudam a uma emergência no país vizinho se esta ocorrer a mais de dez quilómetros…), o mercado único ibérico para o turismo, a harmonização das titulações académicas…, e só por milagre é que não cairá na mesa a incontornável questão da central nuclear de Almaraz, agora que os dois governos parecem entender-se, ainda que perante a revolta persistente dos ambientalistas.


Está bem de ver que não faltarão na mesa muitos assuntos que sempre desuniram os países (e que sustentam a velha parémia: “De Espanha nem bom vento…”), mas que hoje a vontade dos homens converte em estratégias de união. Talvez por isso em cima da mesa desta cimeira, que por sinal até se realiza em terras nortenhas, não irá estar um vislumbre sequer daquilo que mais une, desde sempre, os dois povos: a cultura ancestral comum Galiza-Norte de Portugal. E era por aí que tudo deveria começar. A Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, que procura afirmar-se numa lógica europeia nova, jamais chegará a bom porto se não tiver como âncora uma consciência de comunidade transfronteiriça sustentada no património cultural imaterial comum. Mas neste capítulo os dois governos estão claramente de costas voltadas. Apesar dos esforços que etnógrafos portugueses e galegos representados pela ONG “Ponte nas Ondas” travam há anos, Lisboa e Madrid ainda não conseguiram sequer entender-se numa coisa bem simples: a apresentação da tão almejada candidatura comum do Património Imaterial Galego-Português a Património Mundial da UNESCO. E bem podia ser agora.

Alexandre Parafita
(In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-05-2017)