segunda-feira, 20 de março de 2017

A primavera no campus da UTAD


Chegou hoje a primavera, a estação do ano que melhor realça toda a beleza do campus da UTAD. Verdadeiro “ex-libris” da Universidade, é considerado um dos maiores jardins botânicos da Europa e marca a diferença em relação a todas as universidades do país. Com cerca de mil espécies distintas, oriundas dos quatro cantos do mundo, revela-se uma autêntica montra de biodiversidade. Não é por acaso que a UTAD, implantada neste excesso de Natureza, se vem assumindo como uma Eco-Universidade, desígnio diferenciador que representa uma poderosa mais-valia para o futuro. E daí que estudar, lecionar e investigar neste ambiente, nesta Universidade, seja um desafio tão estimulante como enriquecedor.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Elas fazem brilhar a escola!



Professoras, educadoras, bibliotecárias escolares… receberam-me carinhosamente com os seus alunos nas escolas de Loulé. O seu labor e criatividade transformam a escola num verdadeiro reino de afetos. O jogo criador em torno da leitura e dos livros propicia momentos de alegria e de festa que auguram amanhãs luminosos na vida das suas crianças.

Nenhuma criança nasce leitora, bem o sabemos. Aprende a sê-lo ao ritmo da vida, seja nas leituras dos bancos da escola, seja nas de “outras escolas” que a esperam também. E nem sempre as leituras das “outras escolas” harmonizam com a missão delicada de ajudar a crescer harmoniosamente com os livros. Daí o nobre papel dos professores e dos bibliotecários escolares que vamos encontrando no nosso percurso. Bem hajam. 



domingo, 12 de março de 2017

Vento de leste… não traz nada que preste


Cresci a ouvir grandes lições dos velhos sábios transmontanos. Filósofos pragmáticos, esgrimem metáforas com a mestria dos sábios gregos. Dão aulas de Economia Aplicada nas tornageiras e vezeiras, nos maninhos, partilhas de água, nas roldas dos moinhos; dão workshops de Lógica e Retórica nos fiandeiros, na hermenêutica das celebrações rituais; avaliam Semiótica das Linguagens na sinfonia dos campos e dos bosques; investigam sobre Epistemologia das Ciências Experimentais nas rotinas ecotelúricas do minguante ao crescente; e sobre Metafísica e Filosofia da Estética na efemeridade comovedora do pôr do sol, no belo-horrível das tempestades, dos ritos de morte, na espiritualidade das crenças, ou no silêncio diáfano da solidão das montanhas.

Mas onde melhor reconheço a sabedoria etnopragmática deste povo ainda é na meteorologia, especialmente na linguagem dos ventos: “com o vento de feição, não há má navegação”. E previne-se, sobretudo dos ventos que sopram de Espanha – travessios, gélidos e secos, trazem cieiros e gripes. Prefere os do lado oposto, ventos húmidos e menos frios. Por isso, diz “água de vento traz meio sustento” e também “vento de Vilartão, água na mão” ou “vento suão cria palha e grão”. Mas pior que o vento espanhol, ainda é o que sopra de todos os lados: “vento de todo o lado é mandado p’lo Diabo”. Quanto aos de Espanha, o povo não tem dúvidas. Atravessam a serra de Lomba, e por isso: “vento de Lomba, frio na tromba”. Queimam os renovos por onde passam, trazem miséria à lavoura. Daí que se diga “vento de leste não traz nada que preste”, o que vale como a exaurida parémia: “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”.

São sentenças carregadas de sabedoria popular, mas que, ciclicamente, são chamadas para outras semânticas alegóricas, nada simpáticas a um desejável clima de boa vizinhança transnacional. Assim foi nos anos 80, perante a ameaça da central nuclear espanhola de Sayago, perto de Miranda do Douro, ou do terrível cemitério de resíduos radioativos de Aldeadávida, em frente a Freixo de Espada à Cinta. Acompanhei, enquanto jornalista, estas e outras batalhas, para travar os planos ameaçadores de Espanha. “Com a Espanha tão grande – dizia-me um popular, – porquê os despejos à nossa porta?”. Ainda assim, batalhas ganhas. Só que agora o fantasma do nuclear parece voltar, com a lixeira de Almaraz, que representa uma séria ameaça para toda a bacia do Tejo. Ameaça a um país que, há muito, disse não ao nuclear. É, pois, hora de dizer: porra, já basta!

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-3-2017

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Morte leva-os… o Diabo seleciona-os!


Findo o Entrudo, acabaram as tréguas do pecado. Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas. As cinzas é o que sobra das “queimas” no entrudo. Queimou-se, pois, o que resta dos dias de pecado. Na ótica cristã, inicia-se agora a caminhada para um tempo novo, o tempo primaveril, sempre mais esperançoso que o inverno que fica para trás. Mas para o alcançar, há que suportar um tempo de purgação, penitência, de rigores incontornáveis: a Quaresma.

Por isso, amanhã saem a Morte e os Diabos à procura dos incautos. Os Diabos, sempre mais frenéticos, pois andam sequiosos de almas pecadoras. Ou seja, a Morte leva-os e o Diabo seleciona-os!

Assim se cumpre a tradição transmontana, única em Portugal. Em Vinhais, saem à rua a Morte e os Diabos (a lógica da tradição manda que seja na 4ª feira, mas, pelo que vejo no cartaz, outras “lógicas” empurram-nos para sábado…).

Por sua vez, em Bragança estas duas tenebrosas criaturas saem acompanhadas de uma outra: a Censura. A Morte, na imagem de um esqueleto com a sua gadanha. O Diabo com os cornículos e o tridente. A Censura com enormes tesouras à cintura. Interessante a simbologia desta última: reflete o equilíbrio, a repreensão pelos atos levianos; ou seja, um derradeiro esforço para que, perante a inevitabilidade da morte, o diabo não venha de garras afiadas arrastar mais uma alma para o seu reino infernal.


Nada acontece ao acaso nestas tradições. Nada é importado. Tudo tem coerência na lógica ancestral do povo cristão transmontano.

AP

sábado, 25 de fevereiro de 2017

As máscaras de ontem e de hoje


«Num tempo em que toda a máquina mediática está voltada para os carnavais das grandes urbes, espelho de uma miscenização civilizacional imposta por outros carnavais do mundo, especialmente do Brasil, quase já só podemos encontrar manifestações diferenciadoras nos rituais de entrudo dos meios rurais, que continuam a assumir uma vertente identitária profunda. No nordeste transmontano, por exemplo, continuam a ritualizar-se as expressões mais originais do entrudo em Portugal, seja pela prática dos julgamentos públicos, queimas do entrudo, leitura de testamentos, pulhas e contratos de casamento (em Santulhão, Espinhoso, Paradinha Nova, Pinela, Carrazedo…), seja pelos desfiles de matrafonas e caretos (Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas, Salsas…) que personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na Roma antiga.
(...) »
Artigo do Jornal de Notícias de hoje, 25-2-2017

 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

As origens dos entrudos transmontanos

(foto de Luís Borges)

As manifestações mais tradicionais do Carnaval em Trás-os-Montes continuam a ser designadas por Entrudo e inserem-se nas celebrações rituais do ciclo do inverno com origens que nos levam até à Roma antiga. Nesta região é onde encontramos as marcas mais originais dessas celebrações, em especial nos ritos protagonizados pelos caretos de Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas, Salsas, entre outros. Mas também nas máscaras de Lazarim, no julgamento do entrudo de Santulhão, o julgamento do Salomão em Armamar, as queimas do entrudo de Paradinha Nova, Pinela, Carrazedo e muitas outras manifestações.

A figura dos caretos, tal como os vemos nestes rituais, personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na antiga Roma desde o império de Júlio César. A fisionomia dos caretos transmontanos, com as suas máscaras demoníacas, impondo um misto de terror e diversão, apresenta evidentes semelhanças com as divindades das festas Lupercais romanas que eram celebradas nesta mesma altura do ano em honra do deus Pã, este também representado com aspeto diabolizado, corpo peludo e cornadura de bode, perseguindo e aterrorizando as pessoas nas ruas. Repare-se como vemos estes cenários reproduzidos nos nossos caretos, quando perseguem e chicoteiam especialmente as moças, assustando-as nas ruas com os seus chocalhos à cintura que movimentam em gestos eróticos.

Nos entrudos tradicionais, há celebrações que variam nos seus ritos e expressões conforme as localidades, isto porque representam também origens diferentes. Neste mesmo período do ano faziam-se também na antiguidade as festas ao deus Saturno, deus da Agricultura. Eram conhecidas como Saturnais Romanas, ou Saturnálias. Nelas era permitido que o poder dos senhores passasse provisoriamente para os escravos, ou seja aqueles que faziam produzir os campos. Era, pois, um tempo de inversão, prazer e exagero, em que os escravos passavam a ser livres, nas palavras e nas ações, podendo expor publicamente os seus senhores, criticando-os e pregando-lhes partidas. É o que vemos também hoje em muitos carnavais, com os poderosos, sejam eles os políticos, dirigentes desportivos e outros, a serem caricaturados nos cortejos ou no espaço público das vilas e aldeias.

Estas celebrações têm uma evidente origem pagã, contudo, com o tempo, o cristianismo apropriou-se delas. Repare-se como a palavra “entrudo” procede do latim “introitus” que significa entrada. Entrada em quê? Entrada na Quaresma, que se traduz num tempo de recolhimento, reflexão, penitência, para curar na alma os pecados que os prazeres do corpo trouxeram dos três dias de excessos anteriores. A Quarta Feira de Cinzas tem, por isso, uma simbologia enorme. Após os três dias de pecado, há que queimar o que resta. Vejam-se os julgamentos, as queimas do entrudo, dos bonecos de Paradinha e Carrazedo, o julgamento de Salomão e a queima do santo entrudo em Armamar (na vizinha Galiza há a “queima do Filipe”). Daí as cinzas. Após as cinzas, constrói-se um tempo novo, o tempo primaveril, sempre mais esperançoso do que o inverno que ficou para trás.

AP

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A RTP igual a si própria: hoje, como há 50 anos…


Por incrível que pareça, a obsessão da RTP em mostrar um lado triste, arruinado e solitário de Trás-os-Montes, acontece hoje como há 50 anos. Nada mudou para a RTP. Evoluiu na tecnologia (hoje as imagens já não são a preto e branco) mas não evoluiu na mentalidade, que o mesmo é dizer: na capacidade de descobrir uma região evolutiva viva.

Quando há 25 anos fui estudar para Coimbra, os meus colegas estranharam não me verem com uma grande samarra ou uma capa de burel pelas costas. Era a imagem que ainda tinham desta terra e de quem por cá vive. A imagem que a RTP difundia.

Está visto que não gostei do genérico do último Prós e Contras. Saiba a RTP que o homem que morde o cão, que tão obsessivamente teima em exibir, já não está no primitivismo das suas imagens de arquivo ou nas que cirurgicamente procura. Para a próxima, venha de olhos abertos. Talvez encontre, finalmente, um território onde vale a pena viver, trabalhar e investir.

AP