sexta-feira, 28 de abril de 2017

Narradores das memórias do Douro, bibliotecas que se vão fechando…



Muitos deles partiram já, mas ainda a tempo de me fazerem herdeiro de boa parte do seu património. Outros, e já são poucos, mantêm-se como tesouros vivos da memória coletiva do Douro. Por eles vou ao país profundo, aos centros de dia, aos lares de 3ª idade. Com eles recolho memórias e sopro acendalhas para que se faça um pouco mais de luz no entardecer das suas vidas. Mas até quando?

Há uma cultura imaterial, identitária, de valor incalculável que se está perdendo no Douro. Perde-se com o desaparecimento destes narradores. E que fazem as instituições responsáveis pela cultura? Nada.

O rio Douro continua a atrair milhões em cifrões. Mas vemo-los ir rio abaixo e nada ou quase nada fica. Em termos culturais, mesmo nada. Quando se esgotar a torneira dos fundos comunitários, cá estaremos para o confirmar. A cultura que se vê programar está voltada para os grandes eventos, de dimensão ilusória alguns, mas que consomem rios de dinheiro. São geralmente efémeros, e deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela agitação que provocam, por vezes apenas alguma agitação mediática, e pela congregação de interesses que mobilizam, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff e pouco mais. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A metáfora dos ouriços


Perante as notícias mais otimistas que têm vindo a surgir sobre os valores inesperados e muito animadores do défice do país, que ajudam a volatilizar os fedores da troika mas também a sublimar as “dores” de um infactível e apocalítico “memorando de entendimento” a que passaram a chamar “geringonça”, dei comigo a recordar uma parábola do filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) sobre o dilema dos ouriços:

Conta-se que numa noite gelada de inverno, vários ouriços-cacheiros, vendo-se em risco de morrer de frio, colaram-se uns nos outros para combatê-lo através do reforço mútuo do calor que cada um conservava no seu minúsculo corpito. Porém, se era certo que, quanto mais unidos estavam, melhor resistiam ao frio, também o era que, desse jeito, a todo o momento se picavam com os espinhos. Assim, se por momentos, se afastavam para não se ferirem, logo após cuidavam de se unir de novo para continuarem a resistir àquele que era o perigo maior: morrer de frio. Mas faziam-no com uma certeza: não era em vão esse sacrifício. Morrer de frio seria sempre pior do que as dores das picadelas.

Não restam dúvidas de que, nesta como em outras cogitações filosóficas de Schopenhauer, é indisfarçável a sua conceção pessimista da vida, como se o prazer consistisse apenas na supressão da dor, desígnio suportado por um paradoxo incontornável: quanto mais próximos estão dois indivíduos, maior é a probabilidade de se ferirem mutuamente; mas, mantendo-se distantes, também a angústia da solidão não parará de consumi-los (e então como seria no amor, se o medo de magoarmos ou nos magoarmos nos inibisse da aproximação à pessoa amada?).

Mas esta e todas as metáforas têm ainda uma outra grande virtude: agarram-se como pastilha elástica às mais prolixas semânticas. Dão para tudo e mais alguma coisa. Assim, quanto à “geringonça”, o dilema agora é conseguir encontrar a distância ideal entre os parceiros que a sustentam. Se no caso dos ouriços, a ambição é suportarem o frio sem se picarem, no caso da “geringonça” deveria ser evitarem o mais possível que as picadelas (ou ferradelas) de cada um venham a afrontar o rumo esperançoso que o país tomou. Porque sem esperança nada se consegue. A penumbra dos dias eterniza-se e as angústias coabitam sempre com os sacrifícios.

AP
in Jornal de Notícias, 21-4-2017

sábado, 15 de abril de 2017

Mãe de todas as quê…?



Jamais a palavra mãe foi tão mal usada! Mãe não é, nem podia ser, nada disto (a mãe de todas as bombas...?!). Para o diabo quem assim pensou!

Mãe é colo, coração, ternura, sentimento. Mãe é doação, amor incondicional, amor permanente, amor infinito. Mãe é sorriso, é bondade, poesia. É lua-cheia que vem esconjurar as trevas dos caminhos tortuosos. É divindade, anjo da guarda. É fogacho de luz na escuridão. Âncora de vida, é nela que a humanidade de gera e se renova.

Jamais haverá bombas onde bater um coração de mãe!



segunda-feira, 10 de abril de 2017

O mito das aparições


Rezam as crónicas que, sete anos antes da aparição em Fátima, a Virgem apareceu a uma pastorinha no lugar do Picão, Miranda do Douro, onde chegou a nascer um santuário entretanto abandonado pela primazia dada pela Igreja ao fenómeno de Fátima. Contudo o lendário português está repleto de aparições semelhantes, e com tal energia creencial que levou à construção de importantes capelas e igrejas. Apareceu a uma pastorinha entre Misquel e Parambos, em Carrazeda de Ansiães, sentada numa cadeira de pedra pedindo uma capela. Com idêntico pedido apareceu a uma pastorinha muda, que conseguiu falar, no lugar da Ortiga, junto a Fátima; a uma outra em Colares (Sª da Peninha); e também a pastorinhos em Alcobaça (Sª da Luz), em S. Vicente da Beira (Sª da Orada), em Sabrosa (Sª da Saúde), nos Açores (Sª do Pranto e Sª da Glória), em Arcos de Valdevez (Sª da Peneda), em Cercal do Alentejo (Sª da Conceição), em Rebordelo de Vinhais (Sª da Penha), em Mora (Sª das Brotas), em Polima de S. Domingos de Rana (Sª da Conceição), em Óbidos (Sª de Aboboriz), em Arruda dos Vinhos (Sª da Ajuda), em Pereiros de Vinhais (Sª dos Remédios). Mas também a um almocreve desorientado na escuridão em Paredes, Sabrosa (Sª das Candeias); a uma pobre mulher vítima de violência doméstica em Rossas de Bragança (Sª do Pereiro); a uma menina cega que passou a ver em Vouzela (Sª dos Milagres); a uma menina leprosa, curando-a, em Vila Flor (Sª da Assunção), a um moço “pouco atilado” e depois a seu pai pedindo uma capela em S. Martinho de Balugães (Sª Aparecida). Umas vezes sobre um penedo, outras sobre um castanheiro, um loureiro, uma roseira brava, uma pereira, ou montada num burro (em Rebordelo). A todos pede uma capela. Em Mogadouro pediu mais: que mudassem o nome de Sª das Dores para a atual Sª do Caminho.

São aparições mescladas em relatos lendários com um fundo comum, incluindo o da natureza dos “videntes”: geralmente crianças pobres, pastorinhos, de escassa instrução. A circunstância de se tratar de pessoas simples, cultural e socialmente, inibe à partida qualquer presunção de haverem planeado uma ação estratégica. Por isso, quanto mais a lenda acentue a sua humildade mais convincente resulta o seu testemunho. Acresce que, tratando-se de figuras do povo, é grande a probabilidade de a “notícia” fluir rapidamente no seu seio. Entretanto, há um olhar resistente, reprovador, das camadas mais elevadas da sociedade, gerando-se um confronto de classes que faz emergir as condições propícias à implementação da ideia de uma justiça cristã sempre favorável aos mais humildes, tal como a apregoa a Igreja. E ao mesmo tempo reforça-se no imaginário coletivo a dimensão mítica das narrações. 

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 10-4-2017)

segunda-feira, 20 de março de 2017

A primavera no campus da UTAD


Chegou hoje a primavera, a estação do ano que melhor realça toda a beleza do campus da UTAD. Verdadeiro “ex-libris” da Universidade, é considerado um dos maiores jardins botânicos da Europa e marca a diferença em relação a todas as universidades do país. Com cerca de mil espécies distintas, oriundas dos quatro cantos do mundo, revela-se uma autêntica montra de biodiversidade. Não é por acaso que a UTAD, implantada neste excesso de Natureza, se vem assumindo como uma Eco-Universidade, desígnio diferenciador que representa uma poderosa mais-valia para o futuro. E daí que estudar, lecionar e investigar neste ambiente, nesta Universidade, seja um desafio tão estimulante como enriquecedor.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Elas fazem brilhar a escola!



Professoras, educadoras, bibliotecárias escolares… receberam-me carinhosamente com os seus alunos nas escolas de Loulé. O seu labor e criatividade transformam a escola num verdadeiro reino de afetos. O jogo criador em torno da leitura e dos livros propicia momentos de alegria e de festa que auguram amanhãs luminosos na vida das suas crianças.

Nenhuma criança nasce leitora, bem o sabemos. Aprende a sê-lo ao ritmo da vida, seja nas leituras dos bancos da escola, seja nas de “outras escolas” que a esperam também. E nem sempre as leituras das “outras escolas” harmonizam com a missão delicada de ajudar a crescer harmoniosamente com os livros. Daí o nobre papel dos professores e dos bibliotecários escolares que vamos encontrando no nosso percurso. Bem hajam. 



domingo, 12 de março de 2017

Vento de leste… não traz nada que preste


Cresci a ouvir grandes lições dos velhos sábios transmontanos. Filósofos pragmáticos, esgrimem metáforas com a mestria dos sábios gregos. Dão aulas de Economia Aplicada nas tornageiras e vezeiras, nos maninhos, partilhas de água, nas roldas dos moinhos; dão workshops de Lógica e Retórica nos fiandeiros, na hermenêutica das celebrações rituais; avaliam Semiótica das Linguagens na sinfonia dos campos e dos bosques; investigam sobre Epistemologia das Ciências Experimentais nas rotinas ecotelúricas do minguante ao crescente; e sobre Metafísica e Filosofia da Estética na efemeridade comovedora do pôr do sol, no belo-horrível das tempestades, dos ritos de morte, na espiritualidade das crenças, ou no silêncio diáfano da solidão das montanhas.

Mas onde melhor reconheço a sabedoria etnopragmática deste povo ainda é na meteorologia, especialmente na linguagem dos ventos: “com o vento de feição, não há má navegação”. E previne-se, sobretudo dos ventos que sopram de Espanha – travessios, gélidos e secos, trazem cieiros e gripes. Prefere os do lado oposto, ventos húmidos e menos frios. Por isso, diz “água de vento traz meio sustento” e também “vento de Vilartão, água na mão” ou “vento suão cria palha e grão”. Mas pior que o vento espanhol, ainda é o que sopra de todos os lados: “vento de todo o lado é mandado p’lo Diabo”. Quanto aos de Espanha, o povo não tem dúvidas. Atravessam a serra de Lomba, e por isso: “vento de Lomba, frio na tromba”. Queimam os renovos por onde passam, trazem miséria à lavoura. Daí que se diga “vento de leste não traz nada que preste”, o que vale como a exaurida parémia: “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”.

São sentenças carregadas de sabedoria popular, mas que, ciclicamente, são chamadas para outras semânticas alegóricas, nada simpáticas a um desejável clima de boa vizinhança transnacional. Assim foi nos anos 80, perante a ameaça da central nuclear espanhola de Sayago, perto de Miranda do Douro, ou do terrível cemitério de resíduos radioativos de Aldeadávida, em frente a Freixo de Espada à Cinta. Acompanhei, enquanto jornalista, estas e outras batalhas, para travar os planos ameaçadores de Espanha. “Com a Espanha tão grande – dizia-me um popular, – porquê os despejos à nossa porta?”. Ainda assim, batalhas ganhas. Só que agora o fantasma do nuclear parece voltar, com a lixeira de Almaraz, que representa uma séria ameaça para toda a bacia do Tejo. Ameaça a um país que, há muito, disse não ao nuclear. É, pois, hora de dizer: porra, já basta!

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-3-2017