sexta-feira, 19 de maio de 2017

Rebuçados de pedra


Quando leio as propostas legislativas dos governos (do anterior e agora deste) sobre o acesso dos cidadãos às pensões de reforma, vem-me sempre à lembrança o meu avô, um velho agricultor do Douro, desses que construíram, arduamente, os socalcos que formam a paisagem vinhateira, hoje Património Mundial.
Meu avô morreu quando sachava um talhão de cebolo. Ao fim da tarde de mais um dia de luta com a terra, a mesma com quem viveu uma paixão fatal, torturada em anos infindos, sentou-se na orla do geio e ali se ficou, com a sachola ao seu lado. Ali o fui encontrar, sereno, conformado com a sua derrota nesse combate desigual, inglório, com a terra. Como quem entrega, resignado, o seu último reduto a quem o escravizou a vida inteira.
Trabalhou, por isso, até ao último dia, até ao último minuto, até ao último instante de vida. Mas sempre achei que se tratou de uma situação absolutamente excecional. Até porque este Homem era também excecional. Mas não. Cada vez mais, vejo pessoas idosas, frágeis, arrastando-se penosamente nos empregos a sonhar com o oásis de uma aposentação eternamente longínqua, o que me traz sempre à lembrança aquela madrasta terra que sugou até às entranhas os derradeiros frémitos de energia do meu avô.
E quando leio que um cidadão, atingindo 60 anos de idade, poderá aposentar-se sem penalização, mas para isso deverá ter mais de 48 anos de descontos, fico espantado com a ousadia destes engodos. Só quem vive fora da realidade pode acreditar na bondade de tais promessas. São rebuçados de pedra, que não sabem a nada. Um cidadão para beneficiar de tal medida deveria ter começado a trabalhar e a descontar aos 12 anos. Em criança, portanto. E que descontos uma criança faria então?
Quem conhece e recorda a realidade desse tempo, sobretudo dos meios rurais, sabe bem que, dos 30 ou 40 miúdos que terminavam a 4ª classe, só meia dúzia, ou menos, prosseguia os estudos. Os restantes começavam logo a trabalhar. Nenhum ficava sem ocupação, pelo menos até serem chamados para a vida militar. Havia trabalho à espera nas quintas, nos montes, nas hortas, nos pomares, no pastoreio… Produziam riqueza, criavam hábitos de trabalho, disciplina, respeito. Mas que descontos faziam tais miúdos, para que hoje, 48 anos depois, possam usufruir dessa putativa reforma?
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 19-5-2017

sábado, 13 de maio de 2017

A Cimeira Ibérica que aí vem


Vila Real foi a cidade escolhida para a Cimeira Ibérica agendada para os próximos dias 29 e 30. Conhecidos os fracassos das anteriores (em especial da última, em Baiona, entre Rajoy e Passos Coelho, que durou apenas três horas e não deu em nada…), é já grande o frenesim em torno desta, que promete, no mínimo, um certo esplendor mediático para Vila Real colocando-a no mapa das grandes decisões transnacionais.

Sobre a mesa, estarão seguramente temas de que já se vai falando, inscritos num chamado Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça (POCTEP). Será assim inevitável retomar o plano de mobilidade transfronteiriça com a projetada conexão ferroviária de TGV Sines-Lisboa-Badajoz-Madrid, e (quem sabe?) dar ouvidos a lóbis nortenhos que reclamam a reconversão da Linha do Douro como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Mas estão aí também temas candentes como os projetos energéticos comuns, as emergências transfronteiriças com enfoque nos incêndios (hoje as leis proíbem que bombeiros de um país acudam a uma emergência no país vizinho se esta ocorrer a mais de dez quilómetros…), o mercado único ibérico para o turismo, a harmonização das titulações académicas…, e só por milagre é que não cairá na mesa a incontornável questão da central nuclear de Almaraz, agora que os dois governos parecem entender-se, ainda que perante a revolta persistente dos ambientalistas.


Está bem de ver que não faltarão na mesa muitos assuntos que sempre desuniram os países (e que sustentam a velha parémia: “De Espanha nem bom vento…”), mas que hoje a vontade dos homens converte em estratégias de união. Talvez por isso em cima da mesa desta cimeira, que por sinal até se realiza em terras nortenhas, não irá estar um vislumbre sequer daquilo que mais une, desde sempre, os dois povos: a cultura ancestral comum Galiza-Norte de Portugal. E era por aí que tudo deveria começar. A Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, que procura afirmar-se numa lógica europeia nova, jamais chegará a bom porto se não tiver como âncora uma consciência de comunidade transfronteiriça sustentada no património cultural imaterial comum. Mas neste capítulo os dois governos estão claramente de costas voltadas. Apesar dos esforços que etnógrafos portugueses e galegos representados pela ONG “Ponte nas Ondas” travam há anos, Lisboa e Madrid ainda não conseguiram sequer entender-se numa coisa bem simples: a apresentação da tão almejada candidatura comum do Património Imaterial Galego-Português a Património Mundial da UNESCO. E bem podia ser agora.

Alexandre Parafita
(In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-05-2017)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Desenhar o Douro com Palavras


A convite do Agrupamento de Escolas João de Araújo Correia, na cidade da Régua, fui esta manhã falar com os alunos da Régua e também de Sabrosa sobre os grandes escritores durienses, em especial o patrono da escola anfitriã. O tema foi “Desenhar o Douro com Palavras”. Falar de João de Araújo Correia e Miguel Torga, mas também de João de Lemos, Guerra Junqueiro, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Guedes de Amorim, António Cabral, Luísa Dacosta e Amadeu Ferreira, para alguns destes jovens foi quase como começar do zero. Ignorados nos manuais, acabam também ignorados nas escolas. Culpa de quem?

(ap)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Narradores das memórias do Douro, bibliotecas que se vão fechando…



Muitos deles partiram já, mas ainda a tempo de me fazerem herdeiro de boa parte do seu património. Outros, e já são poucos, mantêm-se como tesouros vivos da memória coletiva do Douro. Por eles vou ao país profundo, aos centros de dia, aos lares de 3ª idade. Com eles recolho memórias e sopro acendalhas para que se faça um pouco mais de luz no entardecer das suas vidas. Mas até quando?

Há uma cultura imaterial, identitária, de valor incalculável que se está perdendo no Douro. Perde-se com o desaparecimento destes narradores. E que fazem as instituições responsáveis pela cultura? Nada.

O rio Douro continua a atrair milhões em cifrões. Mas vemo-los ir rio abaixo e nada ou quase nada fica. Em termos culturais, mesmo nada. Quando se esgotar a torneira dos fundos comunitários, cá estaremos para o confirmar. A cultura que se vê programar está voltada para os grandes eventos, de dimensão ilusória alguns, mas que consomem rios de dinheiro. São geralmente efémeros, e deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela agitação que provocam, por vezes apenas alguma agitação mediática, e pela congregação de interesses que mobilizam, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff e pouco mais. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A metáfora dos ouriços


Perante as notícias mais otimistas que têm vindo a surgir sobre os valores inesperados e muito animadores do défice do país, que ajudam a volatilizar os fedores da troika mas também a sublimar as “dores” de um infactível e apocalítico “memorando de entendimento” a que passaram a chamar “geringonça”, dei comigo a recordar uma parábola do filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) sobre o dilema dos ouriços:

Conta-se que numa noite gelada de inverno, vários ouriços-cacheiros, vendo-se em risco de morrer de frio, colaram-se uns nos outros para combatê-lo através do reforço mútuo do calor que cada um conservava no seu minúsculo corpito. Porém, se era certo que, quanto mais unidos estavam, melhor resistiam ao frio, também o era que, desse jeito, a todo o momento se picavam com os espinhos. Assim, se por momentos, se afastavam para não se ferirem, logo após cuidavam de se unir de novo para continuarem a resistir àquele que era o perigo maior: morrer de frio. Mas faziam-no com uma certeza: não era em vão esse sacrifício. Morrer de frio seria sempre pior do que as dores das picadelas.

Não restam dúvidas de que, nesta como em outras cogitações filosóficas de Schopenhauer, é indisfarçável a sua conceção pessimista da vida, como se o prazer consistisse apenas na supressão da dor, desígnio suportado por um paradoxo incontornável: quanto mais próximos estão dois indivíduos, maior é a probabilidade de se ferirem mutuamente; mas, mantendo-se distantes, também a angústia da solidão não parará de consumi-los (e então como seria no amor, se o medo de magoarmos ou nos magoarmos nos inibisse da aproximação à pessoa amada?).

Mas esta e todas as metáforas têm ainda uma outra grande virtude: agarram-se como pastilha elástica às mais prolixas semânticas. Dão para tudo e mais alguma coisa. Assim, quanto à “geringonça”, o dilema agora é conseguir encontrar a distância ideal entre os parceiros que a sustentam. Se no caso dos ouriços, a ambição é suportarem o frio sem se picarem, no caso da “geringonça” deveria ser evitarem o mais possível que as picadelas (ou ferradelas) de cada um venham a afrontar o rumo esperançoso que o país tomou. Porque sem esperança nada se consegue. A penumbra dos dias eterniza-se e as angústias coabitam sempre com os sacrifícios.

AP
in Jornal de Notícias, 21-4-2017

sábado, 15 de abril de 2017

Mãe de todas as quê…?



Jamais a palavra mãe foi tão mal usada! Mãe não é, nem podia ser, nada disto (a mãe de todas as bombas...?!). Para o diabo quem assim pensou!

Mãe é colo, coração, ternura, sentimento. Mãe é doação, amor incondicional, amor permanente, amor infinito. Mãe é sorriso, é bondade, poesia. É lua-cheia que vem esconjurar as trevas dos caminhos tortuosos. É divindade, anjo da guarda. É fogacho de luz na escuridão. Âncora de vida, é nela que a humanidade de gera e se renova.

Jamais haverá bombas onde bater um coração de mãe!



segunda-feira, 10 de abril de 2017

O mito das aparições


Rezam as crónicas que, sete anos antes da aparição em Fátima, a Virgem apareceu a uma pastorinha no lugar do Picão, Miranda do Douro, onde chegou a nascer um santuário entretanto abandonado pela primazia dada pela Igreja ao fenómeno de Fátima. Contudo o lendário português está repleto de aparições semelhantes, e com tal energia creencial que levou à construção de importantes capelas e igrejas. Apareceu a uma pastorinha entre Misquel e Parambos, em Carrazeda de Ansiães, sentada numa cadeira de pedra pedindo uma capela. Com idêntico pedido apareceu a uma pastorinha muda, que conseguiu falar, no lugar da Ortiga, junto a Fátima; a uma outra em Colares (Sª da Peninha); e também a pastorinhos em Alcobaça (Sª da Luz), em S. Vicente da Beira (Sª da Orada), em Sabrosa (Sª da Saúde), nos Açores (Sª do Pranto e Sª da Glória), em Arcos de Valdevez (Sª da Peneda), em Cercal do Alentejo (Sª da Conceição), em Rebordelo de Vinhais (Sª da Penha), em Mora (Sª das Brotas), em Polima de S. Domingos de Rana (Sª da Conceição), em Óbidos (Sª de Aboboriz), em Arruda dos Vinhos (Sª da Ajuda), em Pereiros de Vinhais (Sª dos Remédios). Mas também a um almocreve desorientado na escuridão em Paredes, Sabrosa (Sª das Candeias); a uma pobre mulher vítima de violência doméstica em Rossas de Bragança (Sª do Pereiro); a uma menina cega que passou a ver em Vouzela (Sª dos Milagres); a uma menina leprosa, curando-a, em Vila Flor (Sª da Assunção), a um moço “pouco atilado” e depois a seu pai pedindo uma capela em S. Martinho de Balugães (Sª Aparecida). Umas vezes sobre um penedo, outras sobre um castanheiro, um loureiro, uma roseira brava, uma pereira, ou montada num burro (em Rebordelo). A todos pede uma capela. Em Mogadouro pediu mais: que mudassem o nome de Sª das Dores para a atual Sª do Caminho.

São aparições mescladas em relatos lendários com um fundo comum, incluindo o da natureza dos “videntes”: geralmente crianças pobres, pastorinhos, de escassa instrução. A circunstância de se tratar de pessoas simples, cultural e socialmente, inibe à partida qualquer presunção de haverem planeado uma ação estratégica. Por isso, quanto mais a lenda acentue a sua humildade mais convincente resulta o seu testemunho. Acresce que, tratando-se de figuras do povo, é grande a probabilidade de a “notícia” fluir rapidamente no seu seio. Entretanto, há um olhar resistente, reprovador, das camadas mais elevadas da sociedade, gerando-se um confronto de classes que faz emergir as condições propícias à implementação da ideia de uma justiça cristã sempre favorável aos mais humildes, tal como a apregoa a Igreja. E ao mesmo tempo reforça-se no imaginário coletivo a dimensão mítica das narrações. 

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 10-4-2017)