terça-feira, 25 de julho de 2017

A incúria e pequenez de quem governa!


Quanto vejo Portugal a arder impunemente, como se de uma fatalidade se tratasse, fico banzado com tanta incúria, ou, mais que incúria, pequenez, de quem governa este pobre país.

Qualquer moço de escola, com dois dedos de testa, sabe bem que bastariam várias equipas especializadas munidas de drones, a lançarem-nos, estrategicamente, nos territórios mais vulneráveis ao fogo, e no espaço de minutos seria identificada e sua origem, bem como o próprio incendiário, e logo uma equipa avançada de bombeiros, servida ou não de meios aéreos, acabaria com o fogo, num abrir e fechar de olhos, onde quer que ele estivesse a deflagar.


Que minúsculas são as cabeças de quem decide!


terça-feira, 11 de julho de 2017

Salvar as sementes


Tem sido grande a polémica em torno dos interesses que se movem, à escala global, pelo controlo das sementes. Há multinacionais a deterem patentes que restringem o uso da semente própria pelos agricultores. E se é certo que os protestos mais recentes levaram o Parlamento Europeu a travar a aplicação de uma lei que, pura e simplesmente, ilegalizava a troca e comercialização das sementes tradicionais pelos agricultores, também é certo que a luta não está ganha: com as patentes e outros direitos de “propriedade intelectual” nas suas mãos, as poderosas corporações podem, em qualquer momento, alegar uma “concorrência desleal” pelo uso e troca das sementes tradicionais dos agricultores e impedi-los assim de prosseguirem uma prática milenar no cultivo dos seus campos. Empenhadas em padronizar o paladar à escala global para melhor venderem os seus produtos, estão-se “nas tintas” para as realidades culturais que os seus interesses afrontam. Nos últimos 100 anos, desapareceram mais de 90% de variedades de sementes da Terra, o que empobreceu a diversidade da alimentação humana, cada vez mais refém de variedades manipuladas visando maior rendimento. Entretanto, o país rural português possui cerca de duas mil variedades de sementes. Há que zelar pela sua salvaguarda. As sementes são parte do património cultural, histórico e alimentar de um povo. A parábola bíblica alegoriza-as como arquétipo da vida: se plantarmos hoje a boa semente, amanhã colheremos saúde, amor, abundância e paz.

Mas esta parábola conduz-nos também, de novo, às grandes ameaças que pairam sobre a sobrevivência da nossa floresta autóctone. Dada a grande extensão de áreas consumidas pelos incêndios, muitas espécies autóctones estão a desaparecer. E, para que num futuro plano de reflorestação se possam recuperar as espécies perdidas, lá voltamos à questão das sementes. O mostajeiro, por exemplo, uma espécie outrora muito usada para madeira e artesanato e cujo fruto as populações aproveitavam para uma excelente compota, está hoje limitado a duas únicas árvores conhecidas em Portugal, diz-nos um especialista da UTAD. Por isso, há que recuperar e proteger num banco de sementes as espécies que estão em risco efetivo. Sem a biodiversidade ativa, estará em causa a qualidade de vida nos territórios, sendo que a qualidade das sementes é um dos importantes aspetos a ter em conta em qualquer programa de arborização. E daí que proteger os recursos genéticos e promover a arborização de espécies autóctones, seja também uma forma de proteger o futuro.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-7-2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Em louvor do engenheiro florestal


Ano após ano, a notícia impõe-se como uma fatalidade: a floresta é um tema incontornável, sempre e somente, pelo seu lado trágico. E como em todas as tragédias, acompanhando o período de nojo do seu impacto, segue-se o inevitável período de reflexão, ao ritmo dos momentos de emoção que sempre albergam o subterfúgio das fragilidades da condição humana…, uma reflexão, por isso, com prazos limitados de validade.

No ano transato, assim foi, perante um verão já de si catastrófico para a floresta. O governo lançou o debate, desafiando investigadores e instituições. Os investigadores da UTAD, conhecendo o terreno como poucos, lançaram então o alerta: “a floresta portuguesa precisa de uma revolução que ponha termo à inércia das entidades responsáveis pela gestão e ordenamento do espaço florestal, mas com medidas alicerçadas num conhecimento técnico-científico”.

Logo, há que mandar para o terreno engenheiros florestais. O país precisa deles. Paradoxalmente, os cursos de engenheiros florestais estão a desaparecer no ensino superior, resistindo apenas numa ou duas instituições comprometidas com uma missão estratégica de revitalização das regiões do interior. Os seus jovens engenheiros estão dotados de uma formação avançada que lhes permite intervir nos projetos de ordenamento e povoamento florestal, na proteção da floresta contra os incêndios, na aplicação do conceito de sustentabilidade na prática florestal. São profissionais que sabem bem como cresce a floresta e como reage perante condições normais e condições adversas. Sabem como ninguém onde, quando, porquê, como e o quê deve nela ser plantado.

Impõe-se, por isso, tornar apetecível a missão de engenheiro florestal. Mas também tornar apetecível trabalhar nas regiões do interior. Começa a ser tempo de pedir contas, ou respostas objetivas, a uma tal Unidade de Missão para o Interior, criada pelo atual governo e da qual se esperam intervenções claras que atraiam gente e atividades para o mundo rural, quebrando a sangria de recursos para o litoral. E nunca esquecendo que a floresta em Portugal ocupa ainda uma posição ímpar no contexto europeu. Representa cerca de 2% do PIB e em Valor Acrescentado Bruto nacional aproxima-se dos 4 milhares de milhões de euros, além de envolver quase 100 mil postos de trabalho diretos e remunerar cerca de 400 mil proprietários.

Já é tempo, pois, de a floresta passar a ser notícia não como um mundo de problemas mas como um mundo de oportunidades.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 26-6-2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A propósito de uma grande polémica por causa de um livro infantil no Brasil


Do Brasil chegam-me notícias de que o Governo vai retirar das escolas 98 mil exemplares de um livro adotado pelo PNAIC (o equivalente ao PNL em Portugal), cujo título é “Enquanto o sono não vem”, perante a queixa generalizada de que uma das narrações sugere um casamento entre pai e filha, portanto uma situação de incesto. Percebi, ao passar os olhos pela narrativa, que se trata de um texto da tradição oral, embora me pareça demasiado “moldado” pelas sucessivas vozes de narradores por que passou.

De todo o modo, há no aproveitamento desta narração para o universo infantil um grande equívoco. Os contos populares (e muitos deles foram importados de Portugal…) ao abordarem temas como o incesto, pedofilia, racismo, etc., fazem-no em termos simbólicos. E se a interpretação da simbologia não chega até às crianças, há que prescindir deles na literatura infantil.

Por exemplo, o conto “Pele de Burro” de que se conhecem muitas variantes (eu próprio recolhi duas), e integrado no ciclo da “Gata Borralheira”, trata de um rei que tenta casar com a filha, ou porque prometeu à rainha moribunda só vir a desposar uma mulher mais bela que ela, ou com uma a quem servisse o seu anel, ou a quem servissem os mesmos vestidos, etc., etc. Ora, como só a filha do rei preenche tais condições, o casamento seria com ela. Porém, aqui entra uma fada que oferece à menina a “pele de burro” que a disfarça levando à sua rejeição pelo pai, mas não por um príncipe que a desposa. A simbologia da mensagem deste conto é clara: a proibição do incesto. Mesmo que as condições naturais o favoreçam (promiscuidade habitacional, ambiente miserável nas famílias…), há que combatê-lo com todas as forças. Passar da natureza à cultura, da vida animal à vida humana, é um dos mais valiosos requisitos civilizacionais.

São estas mensagens que os contos populares transmitem. Passar os seus conteúdos para a literatura infantil é um desafio sério. Quem não o pode, ou não sabe fazer… fique quieto. 

(ap)


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um diamante a (de)lapidar



O ministro Augusto Santos Silva, com referência ao potencial das regiões fronteiriças luso-espanholas, chamou-lhe “um quase diamante por lapidar”, procurando desse jeito antever uma espécie de filão a sair da Cimeira Ibérica que se anunciava para Vila Real. E se bem sabemos como os símbolos são as pedras preciosas da linguagem sábia, há que reconhecer também no diamante a simbologia da perfeição e do invencível e imutável poder do espírito. Perfeição e espírito remetem-nos para a cultura. E em boa verdade a cultura foi o que esteve claramente ausente na Cimeira Ibérica de Vila Real. No imenso cortejo de ministros que de Portugal e Espanha marcaram presença, não vimos nem o ministro da cultura português nem o espanhol.

Os dois países firmaram, de facto, importantes acordos, seja para uma fruição turística estratégica, seja para a desembocadura dos rios de fronteira, para o reforço da cooperação científica, tecnológica e empresarial, seja em matéria de emprego e assuntos sociais, assim como na implementação das redes ferroviárias (Sines-Madrid; Aveiro – Vilar Formoso – Salamanca; e Porto – Vigo), deixando de fora a Linha do Douro, apesar dos estudos recentes que apontavam a reconversão desta via como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Tendo sido escolhida a região do Douro como palco da cimeira, muitos perguntarão: o que ganhou, afinal, a região, para além dos instantes de fama ou da miragem mediática focada no Douro navegável e na cidade de Vila Real?

           Visto isto, o “quase diamante” que o ministro invoca não passou do “quase”. Agarrar o projeto cultural comum por que vêm lutando etnógrafos galegos e portugueses há anos com vista à classificação pela UNESCO do património imaterial da velha Gallaecia, poderia bem ser o “diamante” desta cimeira. Só que a cultura não entrou lá.


Quando pela Europa fora se criam eurorregiões e eurocidades assentes em bases artificiais, em estratégias que podem prescrever se os interesses que as movem se alteram, a Galiza e o Norte de Portugal partilham uma consciência de comunidade transfronteiriça assente em bases culturais profundas e isso faz a diferença. Partilham laços histórico-culturais retratados na língua, no lendário comum, na etiologia dos topónimos, no romanceiro e cancioneiro, na ritualidade dos atos festivos. Saibam (Lisboa e Madrid) que aqui há um povo que sempre ignorou os muros que os estados jacobinos e centralistas procuraram impor ao longo da história. Um povo que vive como se as fronteiras não existissem. 

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 12-6-2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O amor também é assim…


Uma família de corujas em risco foi acolhida no Hospital Veterinário da UTAD. Devidamente tratadas, curadas e nutridas, estão agora em condições de se fazerem à vida. A UTAD vai por isso devolvê-las ao seu habitat.

Pediram socorro à Universidade e obtiveram-no. Gestos bonitos estes! E não apenas simbólicos, que afinal a coruja, guarda-noturna, princesa da noite, é também o símbolo da sabedoria, do conhecimento racional. Vê o que os outros não veem, e vê em todas as direções (consegue girar em 270º o pescoço para observar tudo em redor sem o menor movimento do resto do corpo…). Na mitologia grega, a deusa Athena, deusa da sabedoria, tinha sempre consigo, como assessora, uma coruja que lhe revelava as verdades ocultas.

Parabéns a quem tão bem tratou esta família!


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A cultura do efémero


Convidado há alguns dias por um agrupamento de escolas da região do Douro para falar com jovens sobre a literatura e os escritores durienses, fiquei estupefacto com o desconhecimento generalizado sobre os nomes e a obra dos grandes autores que desenharam em palavras e cantaram em versos a paisagem humana e física deste território, projetando-a para lá das fronteiras regionais e nacionais. Miguel Torga, João de Araújo Correia, João de Lemos, Guerra Junqueiro, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Guedes de Amorim, António Cabral, Luísa Dacosta, todos eles figuras emblemáticas e grandes embaixadores literários do Douro, são nomes (tirando o primeiro e o segundo nas escolas de que são patronos) completamente desconhecidos dos jovens de hoje.

Mas já não é só inquietante constatar a desvalorização da prática da leitura como instrumento de formação pessoal destes jovens; inquietante é também perceber a total indiferença em relação aos fatores culturais identitários que ligam os escritores ao território, aos espaços mágicos da paisagem enquanto fonte ativa de cultura e por isso fortemente inspiradores para os atos criativos.

Quem deveria fazer algo para afrontar esta realidade, ajudando a promover a leitura dos autores nas escolas e nas famílias, enriquecendo as bibliotecas escolares e fomentando parcerias dinâmicas com elas, patrocinando a reedição de obras fundamentais…, em vez disso, continua a ocupar-se em eventos efémeros, tertúlias de capela com os mesmos a debaterem sempre o mesmo, em formatos gastos e improdutivos. A cultura que se vê programar continua voltada para eventos de dimensão ilusória, mas que consomem rios de dinheiro, sem garantirem dinâmicas duradouras e enraizadas nas comunidades. Geralmente efémeros, deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela congregação de interesses que mobilizam e pela agitação momentânea que provocam pontuada numa simulada agitação mediática, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff, portanto.

Enquanto isto, continuamos a ver os nossos adolescentes, gravitando nos caprichos do vento, rendidos a uma certa “poesia” vomitada nos palcos, capazes de fazer coro com um excêntrico músico da onda rap (a entoar “deixa-te de merdas” ou “gosto do teu rabo / principalmente quando ele mexe / e a minha cresce”…), mas incapazes de recitar um verso de Torga.

(ap)
in Jornal de Notícias de 26-5-2017