sábado, 13 de janeiro de 2018

Avós que contam histórias


Uma nova descoberta para o turismo. O projeto Viv@vó, que nasceu no IPB, mais propriamente na Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela, foi apresentado ao país na RTP-1, na quinta-feira, com reposição hoje (sábado).

As avós (Maria da Graça Afonso, de Agrochão, Vinhais, e Maria Lucinda Rosa, de Vila Verde da Raia, Chaves) vão dar corpo à experiência-piloto. Abrem as portas do seu lar e da sua aldeia, apresentando-a aos turistas, que experimentarão sabores da gastronomia e doçaria local, enquanto ouvem histórias antigas, lendas da aldeia, cancioneiros e romanceiros.

Uma experiência, única em Portugal, que promete.


A arte de deslumbrar as novas gerações…


Estas quatro jovens (Marta, Sónia, Cristiana e Susana), alunas da licenciatura em Ciências da Comunicação da UTAD, e (quem sabe?) futuras jornalistas, apresentaram hoje, orgulhosamente, um interessante trabalho académico de final de semestre, sobre a história de vida de Barroso da Fonte, decano do jornalismo em Portugal.

Absolutamente seduzidas pelo seu percurso, qualidade profissional, verticalidade, arroubo intelectual e ilimitada jovialidade, trouxeram dele uma grande lição: nada se consegue sem trabalho, sem estudo, dedicação, disciplina, respeito pelos valores matriciais e sobretudo humildade respeitosa perante quem nos pode transmitir os saberes que acumulou numa exemplar experiência de vida.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Manifestação de “desinteresse”


Recebi nesta quadra, provenientes de pessoas e instituições portuguesas, um número considerável de mensagens natalícias em língua inglesa. Não respondi a nenhuma delas, ao invés do que geralmente faço quando recebo os habituais votos simpáticos de Boas Festas.

E não respondi porque acho reprovável que, num momento tão maternal e identitário, haja portugueses que optem por comunicar com outros portugueses em inglês. Revelam preconceito em relação à nossa Língua-Mãe, a Língua Portuguesa.

E se já me inquietava saber que há portugueses (?) que têm preconceito em afirmar o português no universo de outras línguas, muito mais me inquieta perceber que há quem tenha preconceito em usar o português quando fala com outros portugueses.

Estando, pois, a aproximar-se o Ano Novo, manifesto desde já absoluto desinteresse em receber mensagens de pessoas ou instituições portuguesas que não se expressem na nossa Língua-Mãe. A língua em que aprendemos a amar e a pensar. A língua de Florbela, de Pessoa, de Camões… O nosso Património pátrio mais precioso.

ap

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A metáfora da escola num livro de Literatura Infantil


Tive o grato prazer de apresentar, ontem à noite, o livro da escritora Assunção Anes Morais «A Abelhinha Mariana», uma história de afetos sobre a relação de uma abelhinha rebelde com a sua abelha-mestra. O Grémio Literário Vila-realense estava repleto de público. A grande maioria eram professores, como a autora. E bem se justificava que o fossem.
A história do livro, como tive ocasião de dizer, é a metáfora do próprio sistema escolar. A colmeia é a escola, as abelhinhas os alunos, a abelha-mestra o professor. Os alunos, tal como a abelhinha Mariana, às vezes travessos, cabeças do ar, são chamados à razão pelo professor que os incentiva ao trabalho diário, ao trabalho coletivo, procurando transformá-los em alunos responsáveis e cumpridores,
Afinal, tal como a abelha-mestra da história, o professor tem sempre a palavra certa, no momento certo, para ajudar os alunos a superar os fracassos e as desilusões.
Parece incrível como ainda há quem menospreze esta nobre missão dos professores!

(ap)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Geração sem memória é geração oca


Assinala-se este mês mais um ano da navegabilidade do Douro. Foi em finais de outubro de 1990, que uma embarcação turística, com 170 pessoas a bordo, subiu pela primeira vez o rio, desde o Porto até a Barca D'Alva. De então para cá, revolucionou-se o turismo de uma região e de um país. Centenas de milhares de turistas de todo o mundo, cruzeiros de luxo, milhões e milhões de euros… fluem anualmente pelas águas do Douro.

Mas será que todos os que hoje usufruem deste filão milionário saberão que a luta para tornar o Douro navegável em toda a extensão (210 quilómetros) foi dura e longa? Uma luta de David contra Golias (o Douro contra Lisboa) que começou em 1965? De início, procurava-se escoar pela via fluvial os produtos do Cachão, o ferro de Moncorvo e outras riquezas naturais, num tempo em que a instalação da indústria siderúrgica e a extração mineira (volframite, hematite, cassiterite, cromite, arsénio, manganez, antimónio, ouro, prata…), abriam horizontes novos à economia da região.

A navegabilidade impunha-se, pois, como solução. Contudo, o Douro continuava o rio de mau navegar. A memória dos naufrágios e lutos nas povoações ribeirinhas e as ermidas nas margens a recordar as tragédias dos velhinhos rabelos, continuavam a lembrar os perigos seculares do rio. A remoção de obstáculos à passagem de embarcações de grande porte, assim como a construção de eclusas nas barragens, eram investimentos necessários, aos quais Lisboa virava costas. Lisboa era a capital, o resto paisagem. A luta iria, pois, ser longa e difícil. Faltavam “guerreiros” que afrontassem o regime. Afrontou-o um velho jornalista, Rogério Reis, hoje votado ao mais injusto silêncio. Alimentou durante anos uma campanha ininterrupta em prol da navegabilidade, escreveu um livro sobre o tema, fez centenas de reportagens e editoriais, conferências e ousadas interpelações a governantes (ainda o conheci nessa luta) antes e depois do 25 de abril. A batalha foi ganha, está bem de ver. Mas já não para os grandes objetivos originais (esses perderam-se), e sim para abrir passagem aos luxuosos cruzeiros.

Rogério Reis morreu invisual, num bairro social de Vila Real sem nunca ter entrado num desses cruzeiros que hoje drenam milhões Douro acima e Douro abaixo. Será que alguma vez, ao celebrar-se mais um aniversário da navegabilidade, se lembrarão dele, evocando a sua memória? Uma geração que se habitua a apagar a memória, ainda que hoje lhe corram os milhões pelas mãos, um dia acabará oca, ou, pior ainda, seca como palhas alhas.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 27-10-2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O triunfo do anti-herói


Ao teorizar sobre o inconsciente, há quase um século atrás, Sigmund Freud revolucionou a psicanálise conseguindo interpretar o lado mais irracional e profundo da natureza humana como esse lado oculto que afeta os comportamentos que o indivíduo geralmente recusa aceitar numa dimensão consciente. Se nos transportarmos para o tempo em que assim teorizou, fácil é perceber como já então se profetizava o triunfo de algumas das irracionalidades da primeira metade do século XX, a começar pelo nazismo. Indivíduos que conscientemente não são racistas nem xenófobos, inconscientemente são-no.

Abre-se, pois, nesta dualidade (consciente vs. inconsciente), um caminho fácil ao triunfo dos contrários. E essa exploração dos contrários (que já outros psicanalistas, como Carl Jung, avaliaram num confronto de opostos que procura sublimar a identidade do “eu” num cenário de menosprezo e humilhação do “outro”) continua sendo, ainda hoje, uma estratégia recorrente para atingir e despertar públicos habitualmente indiferentes ou apáticos, e assim confirmar a eficácia desse tal modelo hipodérmico de comunicação preceituado por Lasswell.

Esta constatação não deixa de colocar-nos também perante uma clara problematização de tudo aquilo que se inscreve nos padrões da norma, do convencional, dos valores morais consolidados, em favor de um oculto-subversivo, misterioso, marginal, grotesco até. Ou seja, a sociedade é impelida a admitir uma clara hegemonização de “mitos triviais”, supérfluos, provocadores, o que, inevitavelmente, irá impor também uma revisão do próprio conceito de “herói”.

Na verdade, o herói começa hoje a “medir-se” mais pela capacidade de contrariar o convencional (por exemplo, assumindo a ousadia de um coito em direto na tv…), do que pela capacidade de distinguir-se no quadro daquilo que é convencional. Hoje é mais estimulante assaltar o castelo do que defendê-lo. E esta constatação, se, por um lado, traduz uma rotura com valores do passado (em que os heróis eram aplaudidos pela forma como o defendiam), por outro, não deixará de implicar o risco de estarmos a construir modelos éticos duvidosos e problemáticos para as novas gerações.

Ocorre-me esta breve reflexão apenas e só por ter visto quase 70% da população avaliada em recentes sondagens, aderir positivamente aos discursos racistas e xenófobos de um conhecido candidato às próximas eleições autárquicas. 

AP
in Jornal de Notícias, de 11-9-2017


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A memória dos homens (de alguns) é curta!


Li na imprensa que o Colégio da Boavista, de Vila Real, celebrou há poucos dias o seu 90º aniversário.

Pergunto eu: será que ocorreu aos organizadores um momento de homenagem a este homem aqui na foto (António Alves Miranda, falecido em 2013)?

Foi ele quem salvou o colégio da falência nos anos 70. Reergueu-o do zero, quando todos o abandonaram em vista da falta de lucros.

É bom não esquecer que nesses anos, quando muitos homens e mulheres emigravam para equilibrarem as suas vidas, os filhos ficavam, confiadamente, aos cuidados deste Colégio como internos. Porém o dinheiro era escasso. Não chegava para alimentar tantas bocas e pagar a professores. Esteve, pois, para fechar portas, não fora o sentido cristão, altruísta e generoso do seu dedicado tesoureiro, que, receando pelo futuro de tantos adolescentes, desamparados e sem as famílias perto, assumiu ele próprio as funções de professor, contínuo e administrador… sem ganhar um tostão! Visitou um a um todos os credores, assumiu com eles compromissos pessoais, pediu todos os auxílios possíveis à comunidade local, e só assim conseguiu reerguer das ruínas a instituição.

Hoje, de facto, o Colégio da Boavista é uma referência no ensino em Portugal. Mas reconhecê-lo é tão importante como saber honrar a memória dos Homens (com H grande) que construíram o caminho. Aqui deixo a lembrança, porque a memória de alguns é curta! Muito curta!

(ap)