sábado, 28 de janeiro de 2017

Comandar um rato… com um sorriso!


Não era suposto trazer aqui de novo o inquietante “Admirável Mundo Novo” de Huxley com o cenário sombrio de profecias que traçou para esta sociedade incapaz de se proteger das tecnologias que ela própria criou. Muitas das suas profecias estão aí, bem o sabemos, ainda que metaforizadas algumas, outras como ameaça latente. Clonagem, manipulação genética, pessoas programadas em laboratório, surpreendidas por um rumo que nem sequer idealizaram, como se a tecnologia não fosse feita para o homem, mas o homem feito para a tecnologia, são alguns dos vaticínios desse “admirável mundo”. Um quadro preocupante, já percetível numa geração de “nativos digitais”, dominados por tecnologias que avassalam sem defesa, crianças e jovens moldados pelo uso de tablets e smartphones; mas também nos paradoxos de uma sociedade moderna, em que os anseios de privacidade por vezes obsessiva das famílias esbarram com os prazeres da visibilidade nas redes sociais, expondo viagens íntimas, fotos e nome dos filhos, e cada vez menos adotam atitudes críticas em relação às tecnologias que as escravizam. Como diz Huxley numa entrevista de 1958, a propósito dos ditadores do futuro: “Para se preservar o poder indefinidamente, só basta obter o consentimento dos governados”.

Mas não voltaria, como disse, a esse “admirável mundo” se não tivesse lido, há dias, uma admirável reportagem do JN, rubricada por Sandra Borges, com a história de uma jovem, ex-aluna da UTAD, que aplicou os saberes do seu curso (Eng.ª da Reabilitação) para ajudar a sua prima de 15 anos, portadora de doença neuromuscular degenerativa, agarrada a uma cama e incapaz de se exprimir, a poder comunicar com um computador e assim comunicar com o mundo. Andreia Matos, durante o seu curso, criou um software de reconhecimento de expressões faciais, projetado para a sua familiar, mas adaptável caso a caso conforme o grau de deficiência. A pequena Bárbara (“princesa Babá” como a tratam) pode agora com um ligeiro sorriso comandar um rato, interagir com a terapeuta, completar trabalhos escolares ou controlar a personagem de um jogo.

Será que Aldous Huxley, quando há 86 anos atrás inquietou a humanidade com o seu “Admirável Mundo Novo”, futurando uma sociedade escravizada pela tecnologia, teria sequer admitido nas frinchas das suas profecias um espaço libertador para uma “princesa Babá” que iria ver, deste jeito, um pouco mais aliviadas as agruras do seu mundo? 

Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 18-1-2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Bem-vindo ao Douro!


O abutre-preto, a maior ave de rapina da Europa, regressou ao Douro, após mais de 40 anos de ausência. Foi visto no Parque Natural do Douro Internacional onde nidificou, havendo também registo de um novo membro da família. Por isso veio para ficar.


O Douro afirma-se, assim, como um espaço único, onde a natureza convida à vida! Longe da (o)pressão e da poluição das grandes cidades, existem por aqui verdadeiros paraísos procurados pelos seres vivos do planeta mais rigorosos e criteriosos nas escolhas quando se trata de zelar pela qualidade de vida: que o digam as famílias de abutres do Egito, milhafre real, grifos, a cegonha preta, o açor, o mocho de orelhas, a águia-real, o falcão peregrino, a águia de Bonelli (águia caçadeira), o bufo-real, o andorinhão-real, entre muitas outras (ameaçadas em toda a Europa) que se passeiam livremente pelos planaltos, florestas e arribas do Douro.

(ap)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Em louvor da Imprensa Regional


Iniciei a profissão de jornalista na verdura da década de 80 do século passado. Tempos inesquecíveis. De lavrador de terras, condição que trago no ADN, tornei-me então lavrador de palavras, livre como o vento, apenas manietado pelo aprumo dos velhos “linguados”. E pelos rigores da ética, pois claro. Em Trás-os-Montes, meu berço e meu regaço, percorri todos os recantos na busca das melhores histórias. Umas vezes tristes, dramáticas; outras alegres, vitoriosas. Histórias que se impunha converter em reportagens vivas e proativas. E assim fui desbravando léguas e léguas de silêncios como quem rasga a textura densa de uma floresta virgem. Eram tempos em que o jornalismo tinha sempre o encanto da novidade, e, sobretudo, o romantismo das causas solidárias. Tempos em que levar a “carta a Garcia” era, antes que tudo, assinar um contrato com o desconhecido, com o imprevisível. Tempos em que o jornalismo em Trás-os-Montes era, ele mesmo, a novidade. A notícia.

Partilhei esses momentos com autênticos e generosos “cabouqueiros” da imprensa regional e companheiros da grande imprensa descentralizada: César Sampaio, José Pires de Moura (da Foto Márius), Orlando Inocentes, Mesquita Guimarães (mestre Guimarães), Zé Macário (pai e filho), Sílvio Teixeira, Barroso da Fonte, Bento da Cruz, Inocêncio Pereira, João Sampaio, Figueiredo Sarmento, JBCésar (o “Jim” para os amigos), João Luís Teixeira (antes de “subir” a presidente da câmara de Murça), Coronel Xico Costa (jornalista quase até aos 100), Chico Rocha, Pe. Cardoso, Armando Miro, Agostinho Chaves, Fernando Calado, César Urbino, Guedes de Almeida, Fernando Subtil, Rogério Reis, Fernandes Pinto, Jaime Ferraz Gabão na Régua, o professor Júlio Coelho em Lamego, Barros Rodrigues em Chaves, Carlos Morgado em Vila Pouca de Aguiar e tantos outros.

Eram então uma espécie de cavaleiros andantes das causas solidárias. Estavam em todas. Aliás, isso mesmo é o que está no cerne da Imprensa Regional. Os jornais são uma espécie de tribunais de papel que procuram dar voz a quem não tem voz. Quando o conturbado período que sucedeu ao 25 de Abril de 1974 for sujeito a uma análise sociológica rigorosa relativamente ao desempenho da Comunicação Social, uma análise que só a distância temporal permitirá de forma desapaixonada, poderá então avaliar-se esta “vocação genética” da Imprensa Regional e o poder inquebrantável que teve em mãos. Sendo esse um período em que a generalidade dos meios de Comunicação Social de âmbito nacional foi tomada de assalto pelo poder emergente da revolução, que passou a sustentá-la economicamente e a sujeitá-la a vínculos políticos incontornáveis, houve, de facto, uma pequena franja da imprensa em Portugal que se impôs pela sua irreverência, pelos laços vigorosos que mantinha com o povo das Regiões, com o país real, pelo que resultou vencedora a sua odisseia. Era a Imprensa Regional. E merece ser recordado como no seu seio depressa se instalou um enorme desencanto que tomou sinais de revolta em relação ao famoso regime do PREC, o qual foi liminarmente rejeitado pela grande maioria da Imprensa Regional. Assistiu-se no chamado “Verão quente” de 75, a uma poderosa campanha nos diversos pontos do país com vista a impedir a nacionalização da Rádio Renascença, uma campanha que resultou positivamente e teve, na primeira linha, a presença de uma influente, esclarecida e bem referenciada Imprensa Regional.

É certo que vivemos numa época em que a comunicação instantânea e globalizada ganha um vigor galopante, parecendo por vezes um paradoxo falar-se no ressurgimento de um regionalismo informativo. Há que ter, no entanto, a perceção de que a globalização, ao criar a consciência planetária, se, por um lado, comprime a dimensão do âmbito comunicacional ao aproximar nações e pessoas, por outro, terá de esbater a rigidez do centralismo dos estados, com a emergência da diversidade das comunidades locais e regionais. Por isso, numa sociedade massificada, caracterizada pela dimensão mundial dos acontecimentos, impõe-se a necessidade de fazer emergir uma corrente revitalizadora do peculiar, do genuíno, do local ou regional, e com ela despontar uma massa crítica, que possa ajudar a impor um dos direitos mais profundos: o direito à diferença, o direito à diversidade.


Atente-se, contudo, que o despontar desta massa crítica, permitindo a afirmação de uma vontade esclarecida que ajude as populações a optar, quando se trate de causas que a ela respeitam, só é possível com uma imprensa regional forte, culta e coerente. De pouco valerá insistir que a Região vale por ser a reserva cultural e histórica de um povo, se dentro dela não surgirem impulsos que projetem a sua personalidade específica, a sua pujança própria. Daí, pois, o contributo fundamental da Imprensa Regional.

AP

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os “herdeiros” de Fernão de Magalhães


            Aproximando-se o 5º centenário da viagem de Magalhães e o anúncio, pela Rede Mundial das Cidades Magalhânicas, da candidatura da “Rota de Magalhães” a Património Mundial, volta a eterna questão: afinal, Fernão de Magalhães é natural de onde?

Desde tempos imemoriais, a sua naturalidade foi dada como inequívoca em Sabrosa. Assim o diziam dois testamentos, um de 1504 (quando partiu para os oceanos) e outro de 1580 (de um sobrinho-neto exilado no Brasil), reforçados por um auto oficial de 1798 em que seis escrivães confirmam a sua genealogia ligada a essa vila, sendo que tais documentos identificam bens efetivamente aí localizados, como a Casa da Pereira, a quinta da Souta e o legado de missas anuais no altar do Senhor Jesus da Igreja de São Salvador do qual ainda existem vestígios na atual Igreja Matriz. A existência, na dita casa, do brasão com armas picadas refletindo o castigo que, no tempo de D. Manuel I, era corrente aplicar a quem praticasse atos considerados de traição à Pátria, assim entendida a missão do navegador ao serviço de Espanha, corroborava a mesma tese.

Entretanto, em 1921, a veracidade destes documentos foi posta em causa pelo historiador António Baião, com argumentos logo rebatidos pelo seu contemporâneo Abade de Baçal, que publicou minuciosa recolha de documentação obtida em fólios particulares em Vila Flor e depositou no museu com o seu nome em Bragança. Tais dúvidas, porém, bastaram para que outras hipóteses de naturalidade emergissem, como o caso do Porto que cita uma declaração com a expressão “Vecino de la cidade del puerto”, a qual atestaria ser daí natural, embora se saiba que outro testamento em Espanha declara do mesmo jeito: “vesino q soy desta muy noble e muy leal çibdad de Sevylha”. O que vale então, para o caso, esta palavra “vecino”? Pouco. Apenas que Magalhães aí morou.

De assinalar que as questões divergentes da naturalidade do navegador foram geradas muito depois da sua morte, ao perceber-se que haveria grande fortuna a reclamar da coroa de Espanha, por lhe ser devida uma parte dos territórios descobertos. Foi então que supostos parentes surgiram em diversas localidades do País, uns e outros logo impugnados e desacreditados nas suas pretensões pelo poder castelhano, que dessa forma assegurava a intocabilidade do seu património. Uma impertinente luta de “herdeiros” que, afinal, serviu apenas para aumentar o mistério e a polémica sobre o berço de Magalhães.

Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 10-1-2017

domingo, 25 de dezembro de 2016

O Douro (o)culto


Celebrou-se por estes dias, na justa medida da dignidade do evento, os 15 anos da classificação pela UNESCO do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Como é próprio das celebrações, foi uma oportunidade para refletir sobre os desafios que o selo de Património Mundial impôs no Douro e sobre novas dinâmicas que assegurem um crescimento sustentado salvaguardando a autenticidade do território. Uma oportunidade também para louvar o trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, conseguiu moldar a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular enquanto paisagem “evolutiva viva”.

Vencida esta batalha, que colocou o Douro nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), há “outro” Douro que continua de fora. Na mesma medida em que uma paisagem “evolutiva viva” cresce, um Douro cultural de gente, de memória, definha. Entidades e organismos que vemos trombetear nas celebrações, alguns com responsabilidades na área da cultura, ignoram que o Alto Douro Vinhateiro não é apenas um espaço físico. É também um espaço semiotizado com a memória coletiva como suporte; um espaço de Património Imaterial que provém das raízes do povo e que está ameaçado de extinção nos 13 concelhos que compõem o território. Todo ele é caracterizado por um universo mítico-lendário associado às singularidades assombrosas da paisagem, mas também aos lugares de memória como são os vestígios de povos antigos, com os seus labores, os seus cultos pagãos, a sua religiosidade cristã (lagares cavados em rochas, gravuras rupestres, megálitos, grutas, castros, torres, capelas…), um universo de que a toponímia rural e os testemunhos da população idosa são, muitas vezes, a única fonte de informação disponível.

Este espólio faz parte de uma cultura imaterial, intangível, encerrada em arcas de memória frágeis. Os narradores da memória, “tesouros vivos” deste património, cuja proteção a UNESCO reclama dos estados, estão absolutamente desprotegidos no Douro Património Mundial. O abandono das aldeias e a retirada dos idosos para lares de terceira idade, sem, no mínimo, se acautelar um plano de salvaguarda dos seus testemunhos, através de um inventário sistematizado de Património Imaterial, é o maior flagelo civilizacional do nosso tempo. Hoje trombeteia-se a paisagem “evolutiva viva” para amanhã se prantear a paisagem “evolutiva morta”.  
 
Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 24-12-2016
 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Mistérios do Natal em Trás-os-Montes: do culto dos mortos à condenação do Diabo

(foto de Luis Borges)

O culto dos mortos está ainda presente em muitas tradições natalícias transmontanas. Algumas, especialmente em comunidades rurais do norte do distrito de Vila Real, são suportadas pela crença de que, na noite de Natal, os mortos da família regressam às casas que habitaram em vida para participarem na reunião familiar.

Na simbologia destas tradições têm lugar tanto os vivos como os mortos. Na noite de consoada, sentam-se à mesa os familiares vivos, mas o espírito de todos os familiares mortos vem também compartilhar o repasto. Por isso a mesa não é levantada até à primeira refeição do dia seguinte, porque durante a noite os espíritos estão presentes e pretendem alimentar-se. Bem se sabe que a quantidade de alimentos se manterá a mesma, contudo eles alimentaram-se da essência desses alimentos, presente na espiritualidade que é assegurada pelo rigor da tradição. Daí que, de geração em geração, a tradição mantenha sempre os mesmos rituais e o mesmo género de alimentos: as batatas, a couve tronchuda, o bacalhau, as filhoses, aletria e rabanadas. No dia seguinte, os alimentos que sobram serão aproveitados para nova refeição, conhecida por “roupa velha”.

Na consoada há, por isso, sempre uma evocação dos antepassados. Nas aldeias do Barroso, antes de iniciarem o repasto, é hábito algumas famílias rezarem por cada um dos familiares falecidos, como que a convidar o seu espírito para a refeição. Há memória de famílias que punham uma cadeira vazia à mesa. Nessa cadeira vazia imagina-se o corpo da pessoa cujo espírito estaria ali representado. E as conversas entre todos decorrem como se ele ali estivesse a participar, apontando-se frequentemente para o lugar vazio.
 
Noutras comunidades transmontanas, também o Diabo tem o seu lugar na tradição do Natal, sendo personificado numa figura sinistra designada por “Velho Chocalheiro, que sai às ruas no dia 26 de dezembro e também no dia 1 de janeiro. O mais conhecido é o “Chocalheiro de Bemposta”. Representa a figura do demónio que, por castigo, após o Natal, anda pelas ruas com os seus chocalhos a balançar no traseiro, pedindo esmola para Nossa Senhora e o Menino Jesus.
 
Esta tradição apoia-se numa lenda segundo a qual o demónio tentou seduzir Nossa Senhora quando estava “de esperanças”, a aguardar o nascimento do Menino, e, por castigo, foi condenado a pedir esmola para ela e para seu filho. Com os ruidosos chocalhos, para melhor se fazer anunciar à passagem, e apresentando-se numa figura tauromórfica, com duas laranjas espetadas nas pontas dos chifres e uma barbicha de bode, sai para as ruas no dia 26 de dezembro (a pedir para Nossa Senhora) e no dia 1 de janeiro (a pedir para o Menino Jesus). O produto das esmolas é depois leiloado a favor de Nossa Senhora das Neves, que representa a mãe ofendida.

Alexandre Parafita
 Diário de Trás-os-Montes
 
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Presidente e a Cornucópia

Filandorra

Quando, há dias, o Teatro da Cornucópia, de Lisboa, anunciou que iria encerrar devido aos cortes nos subsídios públicos, o Presidente MRS apareceu de surpresa, “obrigou” o Ministro da tutela a ir com ele e reclamou para a companhia uma “solução de exceção”.

Um gesto bonito, pois claro!

Ficamos agora à espera que faça o mesmo com a Companhia de Teatro Filandorra, aqui de Vila Real, que todos os anos, quando chega a altura da distribuição dos subsídios públicos, anuncia o encerramento, ao ver-se miseravelmente contemplada pelos poderes de Lisboa.

Afinal, se o Prof. Marcelo é o presidente de todos os portugueses, também tem de ser o presidente de todas as companhias de teatro. E não apenas de uma.